2 de março de 2006

... a praia ...


A noite estava fria, deserta e mansa. As ondas do mar batiam serenas, transmitindo tranqüilidade e conforto, enfim, a noite estava agradável. Quase. O vento soprava com pouca força, mas trazia com ele uma fina chuva que gelava o corpo, deixando meus pensamentos e movimentos dolorosos. Mesmo assim, eu caminhava pela areia, com o pensamento distante.

A praia, desde pequeno, foi meu lugar de reflexão e desabafo com a natureza. Ela é testemunha de muitas coisas boas e ruins que aconteceram na minha vida. Naquele momento, o que menos importava era a situação política mundial, a fome no mundo, soluções para a violência ou o trabalho, mas sim, meu interior, eu. Eu e Deus. E ali era o melhor lugar pra eu fazer isso, afinal, estava longe de tudo e de todos. Estava no meu “pequeno paraíso”.

As horas passavam e eu nem notara isso acontecer, eu estava longe. Meu corpo ali se fazia presente, mas minha mente viajava por lugares aonde meu corpo jamais iria.
Eu continuava a caminhar e meus passos marcavam a areia com pegadas fundas, pegadas estas que seriam apagadas pela água do mar depois de uma forte onda “socar” a areia como se descontasse sua raiva sobre a terra.

O caminhar na areia parece inútil, afinal, as pegadas que deixei, que provariam minha passagem por ali, foram apagadas pelas águas. Mas isso não me desanima, porquê os maiores tesouros que estou ganhando são as experiências, as idéias, os pensamentos, os desejos e sonhos que transitam na minha mente tornando-a mais forte. Afinal, qual a necessidade de provar minha passagem pela praia para os outros se o único interessado nela sou eu? Pode vir a onda apagar minhas pegadas e lavar o passado da areia, mas ela não vai apagar o que há de mais precioso no ser humano: sua essência, sua experiência; sua vida.

Meu caminhar pela praia estava chegando ao seu clímax quando, de repente, minha esposa, com quem sou casado há mais de vinte anos, me grita chorando:

_ Querido, corre aqui! O Paulinho está passando mal! Muito mal! Temos que procurar um médico e rápido!

Entrei no carro, que estava parado na beira da praia com minha esposa e filho dentro, e fomos direto pro hospital.

Hoje estou, mais uma vez na praia, caminhando... Ganhando mais um pouco de experiência e força. Pensando, refletindo. Fazendo valer a pena meu dia de sábado. Tentando curar um coração amargo, ferido..., vazio com a perda do único filho que meu amor me deu. Eu o verei de novo..., mas não agora. Não agora.

Mais uma vez estou na praia, mais uma vez caminhando, pensando, refletindo..., curando-me; aprendendo.

Autor: Márcio Raphael

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